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Narco News Issue #53
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Dois Anos Depois em Oaxaca - Parte II

Quais as diferenças? - Redes e Autonomia Local: O Osso da Coxa está Ligado ao Osso do Joelho


Por Nancy Davies
Comentário desde Oaxaca

2 de junho 2008

Ler a Parte I desta série aqui.

Parte II

Oaxaca, México, funciona agora como um entroncamento de movimentos sociais nacionais e talvez também internacionais, de acordo com David Venegas, que já foi prisioneiro político e activista da Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO).


David Venegas
D.R. 2008 Nancy Davies
As ocupações anuais por parte de membros frustrados da Secção 22 do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação (SNTE), na sua greve de 2008, juntaram-se à frustração da população. A permissão para convocar uma assembleia estadual de professores para legitimar novos representantes da Secção 22 dentro do SNTE é claramente uma manobra para manietar o sindicato, e desse ponto de vista é perigosa. Com a Secção enleada pela sensaborona Elba Esther Gordillo, encorajada por Ulises Ruiz Ortiz (URO) a não dar azo a esta importante peça sindical, a tensão cresce em Oaxaca, à medida que nos aproximamos de 14 de Junho, o aniversário do movimento.

No seio da sua luta, a Secção 22 incorporou outras preocupações, particularmente a privatização da indústria petrolífera. Esta é uma tarefa legítima dos professores – eles lavram o terreno; o movimento social coloca as sementes. Dentro do plantón dos professores, prossegue a educação. Ao lado do acampamento na Alameda, decorreu outro fórum a 29 de Maio, patrocinado pela Alternativa Democrática Nacional (ADN) e pelo Partido Revolucionário Democrático (PRD).

E se vos espanta a avalanche de iniciais e de organizações, também a mim – organizações e sectores de organizações multiplicam-se como coelhos.

Salvo uma outra não impossível explosão social, as mudanças em Oaxaca respondem a esta questão:

Onde está a APPO? A minha resposta, e a diferença para os acontecimentos de 2006, são as pessoas organizadas no terreno. Uma rede de activistas espalhada por todo o estado, que são todos, de certo modo, “a APPO”. Como me contou David Venegas, quando a caravana de jovens El Sendero del Jaguar chegou a uma pequena comunidade no Istmo, em Maio, apesar dos jovens não se identificarem com a APPO (muitos não pertencem à APPO), a população dirigiu-se a eles gritando “a APPO está a chegar! A APPO está aqui!”

Somos Todos a APPO

O corpo principal da APPO, aqueles milhares que vieram para a rua em 2006, não estão a participar em reuniões de debates ideológicos – mas eles não desapareceram. Há uma música que diz que “o osso da cabeça está ligado ao osso do pescoço, o osso do pescoço está ligado ao osso do ombro, o osso do ombro…, ouçamos a palavra do Senhor”. Boa música. A palavra do Senhor em Oaxaca é que tudo e toda a gente estão ligados, numa cascata de acontecimentos e movimentos inter-relacionado. A APPO foi descrita como um movimento de movimentos, e agora mais do que nunca isso parece acertado.

Eu considero que ganharam raízes duas mudanças na consciência de Oaxaca. Uma envolve as redes. A sociedade civil agarrou-se à deliberada política governamental de isolamento e separação das comunidades e grupos, muitas vezes acompanhada de violência provocada pelo PRI. Essa táctica de poder está a ser discutida e atacada via comunicação entre culturas. A outra mudança é o confronto do controlo autoritário de cima para baixo. O controlo local, controlo horizontal e ganhos de autonomia cresceram, cidade após de cidade. Eles criaram desafios frontais aos caciques residentes.

Isto não é para fazer esquecer o facto de muitas organizações sociais manterem uma estrutura interna vertical, muitas consistem em pouco mais de duas pessoas, muitas têm posições conservadoras. Nem podia eu esquecer o custo em vidas: por exemplo os dois radialistas de Triqui. Nem a perseguição governamental. Apesar disso, a APPO gritava “cotovelo com cotovelo”, os movimentos sociais espalharam-se como água, muito fortes e não apenas horizontais mas respeitadores dos programas de cada um e das suas prioridades.

A Viagem do “Sendero del Jaguar”

Eu encontrei as irmãs de David Venegas Reyes quando elas estavam a tentar livrar o David da prisão. Sonya estava a juntar dinheiro, vendendo calendários. Natalya falava e viajava; ambas participaram em reuniões da APPO.

Quanto ao David, eu encontrei-o pela primeira vez num fórum público relativo aos prisioneiros políticos no dia seguinte a ele próprio ter sido libertado. Ele passou onze meses nas mãos do governo, apanhado na rua em Abril de 2007 e tramado por um rol de acusações falsas de crimes, depois novamente acusado, e acusado outra vez, até que finalmente os tribunais puseram um fim a isso e ele foi libertado.

As irmãs vivem em Oaxaca com os seus pais, e David licenciou-se numa universidade de Oaxaca como engenheiro agrícola, um diploma que ele considera agora totalmente inútil. Como ele explicou, tudo o que lhes ensinaram vinha do norte: agronegócio e químicos. David é um convicto anarquista (no melhor sentido da tradição política clássica), e um membro da VOCAL, a facção anarquista socialista da APPO. Como pessoa, ele vibra com energia, uns belos vinte e cinco anos, parecendo incansável e sem medos. Quando o encontrei pela segunda vez ele dirigia uma manifestação exigindo a libertação de outros prisioneiros.

De acordo com David, “O Caminho do Jaguar pela Regeneração da Nossa Memória” é o resultado de um trabalho colectivo de rapazes e raparigas activistas que participaram no primeiro encontro da juventude do movimento social, convocado pela APPO na sua terceira assembleia estadual. O encontro dos jovens, que decorreu em Fevereiro de 2008 na localidade de Zaachila, organizou uma caravana de trinta jovens que têm como objectivo fundamental “a reorganização do movimento social de Oaxaca.”

A 27 de Maio o jornal Las Noticias trazia um anúncio de meia página com o título “Pronunciamento Político”. Vinha assinado pela Caravana “El Sendero del Jaguar por la Regeneración de Nuestra Memoria.” Lá podemos ler:

“Tal como no México e no mundo, muitas pessoas estão a lutar e a resistir ao desenvolvimento e ao progresso (neoliberal) porque elas sabem que ele só irá beneficiar uns poucos e esses poucos não são os legítimos donos da terra nem do que lá que encontra. Na região do Istmo de Tehuantepec, cidades como Jalapa del Marqués, Juchitán, San Blas Atempa, Zanatepec e Benito Juárez Chimalapas localizam-se em pontos estratégicos para o desenvolvimento de projectos como o Plano-Puebla-Panamá, a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA, ou NAFTA), o Corredor Biológico Mesoamericano e a Aliança para a Segurança e Prosperidade da América do Norte (ASPAN).”

A caravana de jovens que incluía David Venegas partiu da cidade de Oaxaca a 5 de Maio de 2008, a partir da frente do edifício dos professores. O artigo/explicação de opinião de David apareceu no blogue da internet “Kaos en la Red” e no jornal Las Noticias.

O Movimento Social de Oaxaca: Controlo Local como Modelo Político

A compreensão pública de assuntos relativos à privatização em oposição à propriedade da comunidade – autonomia, controlo local, direitos indígenas e identidade cultural – emergiu como parte integral do decorrido em 2008. Os processos legais no Istmo contra a fraude na cobrança das empresas estrangeiras das eólicas, o falhanço na obtenção de investimento local, pagamentos de rendas injustos, bem como estudos ambientais enganadores e a não observação dos direitos indígenas. Seria um modelo para a nação se esses processos fossem vencidos e implementados. Legalmente, baseiam-se na violação da constituição mexicana, relacionado com as proibições de entregar o petróleo a investidores estrangeiros. Nas palavras do Sendero:

... este movimento (2006) contra a globalização não apenas tocou as portas do céu, tocou-as como uma tempestade, o que significava que os antagonistas, ”o governador”, “o estado”, “neoliberalismo”– eram reconhecidos. As exigências eram directas, eram apresentadas por solidariedade, mas também pelo insulto e pelo descontentamento com uma economia imoral.

A APPO …sublinhou a necessidade de pensar num novo tipo de autoridade, longe de serem Pessoas a governar e Pessoas a serem governadas, e em vez disso (baseado no modelo)“mandar obedecendo”, como defendem os Zapatistas…imaginar que formas de vida lhes servem, as suas próprias crenças, ...sem repetir um socialismo autoritário…agindo com alianças onde possam totalmente apelidar-se de “comunidades”... a APPO avançou simplesmente com a ideia de voltar aos “usos e costumes” que expressa formas alternativas de posse e de fazer política, na busca de diferentes sentimentos de justiça e de autonomia para toda a gente, não apenas para alguns.”

A primeira caravana visitou cinco comunidades na problemática região do Istmo, comunidades que recebem os assaltos neoliberais. Como me explicou David, o equívoco de que os povos indígenas se opõem ao “desenvolvimento” é fundado na sua relutância em aceitar o modelo capitalista de lucro privado, o que inevitavelmente leva à ganância e a colagens individuais ao poder. Em vez disso, eles procuram um “desenvolvimento” que beneficie de forma igual toda a comunidade ao mesmo tempo, não deixando ninguém de lado.

Quanto à caravana Sendero, o objectivo era ouvir e aprender, uma tentativa para compreender. Parecem as caravanas Zapatistas, mas com uma diferença significativa. Em Chiapas, diz David, prevalece apenas um modelo, os caracoles. Mas em Oaxaca cada comunidade manifesta o seu próprio modelo, a sua própria versão de como viver a vida. Os oaxaquenhos, continuou ele, são muito mais territoriais, não apenas nas zonas rurais mas também na cidade, onde se reúnem as assembleias de colonias. “Comunidade” é pessoal e cara-a-cara.

Passaram, a 5 de Maio, 47 anos desde que a localidade de Santa Maria Jalapa del Marquez ficou submersa para criar a Barragem Benito Juárez, um feito alegadamente conseguido através de ameaças e falsas promessas – aqui não há surpresa. A população deslocada recuperou lentamente, muitos tornando-se pescadores. Em 2003 o governo avançou com a ideia de construir um gerador hidroeléctrico para a barragem. Antes de começarem os protestos, o governo dividiu a população entregando terras àqueles que votassem a favor. Apesar disso, a comunidade venceu, verdadeiramente porque houve estudos que mostraram que o projecto hidroeléctrico não era exequível. Mesmo assim os governos estadual e federal não desistiram: veio a polícia e o exército para manter a ordem.

A Barragem Benito Juárez fornece água para irrigar terrenos na Região 19 de Juchitán e Tehuantepec, entre outras localidades. Mas algo correu mal. Não há água. A refinaria da Pemex em Salina Cruz recebe a sua quota, mas depois de Abril nada chegou aos campesinos e à agricultura. Diz-se que a perda das colheitas é de 100%. À medida que os níveis de água baixam na barragem, a igreja e as casas inundadas começam a aparecer como fantasmas na terra seca gretada. A cidade de Jalapa, agora radicalizada, alerta outras cidades ameaçadas com mega-projectos semelhantes.

San Blas Atempa, local de grande repressão e assassinatos alegadamente autorizados pela cacique do PRI, Agustina Acevedo Gutiérrez, uma aliada de Ulises Ruiz Ortiz, foi visitada a 6 de Maio. As pessoas vieram para saudar os jovens Sendero, com a mulheres a falarem numa assembleia pública contra a ambígua, corrupta e criminosa mulher que é a cacique.

Em Juchitán de Zaragoza, a 7 de Maio, os Sendero encontraram-se com a Assembleia em Defesa da Terra, envolvida no confronto à instalação do Corredor Eólico. Endesa, Hiberdrola, Gamesa e Union Fenosa são as transnacionais que instalaram “La Venta I” que começou com oito geradores; agora La Venta II ocupa 850 hectares de terreno. A electricidade gerada é vendida à Comissão Eléctrica Federal. O objectivo é atingir 5000 geradores em mais de 3000 hectares de terreno anteriormente usados para a agricultura e o pastoreio.

Há uma década atrás na bela paisagem de Oaxaca, bois cor de creme pastavam ao lado da estrada da lagoa, uma visão de sonho e paz. Os geradores eólicos não são feios, e a saldo positivo da energia limpa é evidente. Mas não é assim tão simples. O barulho dos geradores afasta efectivamente todos os seres vivos. La Venta IV está projectada para mais 2300 hectares – em terras zapotecas. Os protestos resultaram em 76 ordens de detenção.

Os Sendero também visitaram a rádio comunitária de Juchitán, “Radio Totopo”, que debate quer em língua zapoteca quer em espanhol, os problemas das várias comunidades do Istmo. A vizinhança sustenta o pessoal da Rádio Totopo com alimentos e bens necessários. Outra campanha de resistência formou-se contra a Wal-Mart e os seus super-mercados Aurrera. A rádio comunitária funciona como mais um laço de união.

A 8 de Maio a caravana chega a Benito Juárez, em San Miguel Chimalapa. Esta comunidade protege a selva da exploração e da entrega de concessões. Fica na fronteira com Chiapas. O governo de Chiapas começou há 40 anos atrás a fazer concessões para o corte de madeira e enviou os chiapanecos para se instalarem aí. Os governos encorajaram batalhas entre os recém-chegados e os residentes. Por si próprios, os grupos rivais reconheceram que respeitavam os mesmos princípios de manutenção do ambiente natural. Numa das primeiras vitórias ambientais, o território Chimalapa, cheio de bosques e floresta virgem e com uma riqueza aquífera e biológica imensuráveis, fez recuar o governo e as suas comissões. As pessoas mantêm a zona.

Como nota, lembro que no meio das guerras da geração de electricidade, estes territórios Chimalapa não são servidos por electricidade. O território pertence legalmente a Oaxaca; os dois governos concordam na privatização das terras outrora de propriedade comum, à medida que continua o implacável assalto neoliberal.

A caravana terminou a sua primeira excursão a 14 de Maio. No último dia, a polícia ministerial de Zanatepec parou e revistou a caravana numa zona rural, longe de qualquer população. De acordo com os porta-vozes da caravana, os polícias apareceram dos montes para os ameaçar. Independentemente disso, a “reorganização” da APPO, isto é, da população de base, continua, com laços a serem criados. Os jovens do Sendero, com idades entre os 14 e os “velhinhos” vintes, planeiam visitar todo o estado, região a região. Como me disse o David, eles não precisam de falar com as organizações civis, que já têm as suas próprias agendas. Eles ouvem as pessoas indígenas, os camponeses, os que tentam preservar as suas vidas e as suas visões. Eles aprendem o

que há de tão único sobre Oaxaca, que inspira o mundo.


Traduzido por Alexandre Leite: – Investigando o novo Imperialismo

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